O que é upcycling? Com a palavra, Agustina Comas

Já contamos aqui que a Renner esteve na Brasil Eco Fashion Week 2018. E que, por lá, uma convidada muito especial ensinou técnicas de upcycling: a estilista uruguaia Agustina Comas. Fundadora da marca COMAS , voltada à produção de peças femininas que usam como matéria-prima camisas masculinas, sobras da indústria têxtil e de confecção, Agustina agora escreve sobre o método de criação e produção especialmente para o blog. Que honra contar com os conhecimentos dessa expert <3
O lixo é parte de nossas vidas. Cada produto que compramos numa loja, num supermercado (de um buquê de flores a um automóvel), gera inevitavelmente um resíduo – a embalagem que tiramos de um pacote de bolacha, uma peça de roupa que não usamos mais, um artigo eletrônico antigo que não queremos mais na estante. A questão fundamental é: o que fazer com eles?

O lixo gerado em escala industrial é um problema para a humanidade desde pelo menos os anos 1960. A industrialização, a sociedade de consumo e o descarte massivo de resíduos tornaram essa realidade ainda mais cruel. Manifestações e críticas a essa situação não tardaram a chegar. Nessa mesma década, movimentos ecológicos em defesa do meio-ambiente eclodiram em todo o mundo. Preocupada com a poluição dos rios e do ar, com a preservação das reservas naturais e com os estragos da industrialização, sobretudo em países mais pobres, a agenda ecológica migrou dos movimentos culturais jovens para se tornar uma pauta global. De grande repercussão pública e política, manteve-se na ordem do dia pelas décadas seguintes.

Nos anos 1980, a ONU instituiu o conceito de “desenvolvimento sustentável”. Trata-se, em resumo, da ideia de “um crescimento para todos, assegurando ao mesmo tempo a preservação dos recursos para as futuras gerações”. É a partir desse “caldo”, que transborda para as políticas governamentais, que a moda e a indústria têxtil passam a trabalhar com práticas de sustentabilidade. A preocupação aqui vai para o ponto inicial da cadeia: passa pelo design do produto, pela matéria-prima que será utilizada na sua confecção, pensando na durabilidade, até chegar ao destino adequado que ele deverá ter no final da sua vida útil.

Uma das técnicas encontradas para lidar com o problema do lixo na moda chama-se upcycling. Upcycling é o nome dado ao processo através do qual produtos e materiais descartados pela indústria têxtil são transformados e reinseridos no mercado. Por exemplo: camisas jeans masculinas, com pequenos defeitos de fabricação, são na maioria das vezes retiradas das prateleiras, virando um estoque morto, sem valor comercial. Via upcycling, elas são desconstruídas, redesenhadas e se transformam em saias femininas; sobras do corte de uma produção de biquínis são transformados em novos biquínis; câmaras de pneus velhos viram bolsas modernas… e assim por diante.

Passando pelo processo de upcycling, os produtos e materiais adquirem novos sentidos, usos e valores econômicos. Aparentemente simples, a técnica abriu um campo de possibilidades infinitas para os designers das mais diversas áreas da moda – uma quantidade expressiva de experiências, hoje consolidadas em capitais como Berlim, Londres, Tóquio, Nova Iorque e, claro, também em desenvolvimento no Brasil.

A matéria-prima que pode ser utilizada no processo de upcycling é variada e inesgotável. Nesse momento, é importante falar sobre dois conceitos que organizam todo esse manancial. Guarde-os bem: sobras de pré-consumo e sobras de pós-consumo.

As sobras de pré-consumo são geradas durante ou mesmo depois da produção das roupas na fábrica. Na indústria da moda, que é o nosso tema principal, a sobra pode ser a fibra e os fios da etapa de fiação, os retalhos de tecido das etapas de tecelagem e confecção, as peças prontas que não chegaram às lojas por conta de um defeito de fabricação ou até mesmo aquelas que não foram vendidas, mesmo depois das liquidações.

Quando falamos em sobras de pós-consumo, nos referimos àquelas roupas que já foram usadas. Peças que estão em nossos armários, nos brechós e em lojas de caridade são também matéria-prima para a técnica do upcycling.

Muita gente confunde upcycling com reciclagem. São técnicas diferentes, cada qual respondendo a uma demanda. A reciclagem é o método através do qual um material é processado para voltar a ser o que sempre foi – “re-ciclar”, ou seja, voltar ao seu ciclo. Vidro, borracha, alumínio e PET são bons exemplos. Depois da reciclagem, voltam a ter o mesmo valor e as mesmas características. Existe ainda um segundo método de reciclagem, o chamado downcycling. Nele, o material original, uma vez processado, perde valor. É o caso, por exemplo, do papel sulfite que usamos para escrever. Ele pode ser reciclado, porém, apenas para se transformar em papelão ou papel higiênico…

O upcycling (como o prefixo “up” indica) pressupõe uma adição de valor, que converte o material original em novos materiais ou produtos com melhor qualidade, prolongando sua vida útil.

Como estilista, trabalho com a técnica de upcycling desde 2008, sempre transformando roupas (sobras do pré-consumo do mercado de moda) em novas roupas. Na COMAS, marca de upcycling que criei em 2015, chamamos estas transformações de “receitas”. Eu e minha equipe de design trabalhamos juntas para que camisas masculinas descartadas pela indústria se transformem em peças femininas. Aplicamos a técnica a partir de um “passo-a-passo” detalhado, fazendo com que a receita possa ser aplicada em diferentes tipos de camisa.

A conversa é longa. No próximo post, passo para vocês uma receita para transformar uma camisa masculina (aquela camisa – do marido, do filho, do irmão – que está encostada no armário) numa nova camisa. Vou passar técnicas bem simples que permitem que a receita seja feita na mão até por quem não sabe costurar.